quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Restauro da antiga Norita – publicação 09


“É vedada a utilização de quaisquer informações aqui contidas,  sem autorização expressa de seu autor, sob pena de indenização judicial.”
 
Restaurar é um conjunto de ações para interromper o processo de deterioração de objeto que  testemunhe a história e, no nosso caso, revigorá-lo à sua funcionalidade de quando em utilização produtiva.
 
As máquinas infantis de costurar, fabricadas a partir de 1870, tinham como propósito incentivar as meninas (a partir dos 7 anos) a desenvolver a imaginação e a criatividade para aplicação no dia-a-dia quando adultas.
 
Ao contrário da atualidade, onde os brinquedos limitam-se ao entretenimento virtual, sem instruir às habilidades, as maquininhas despertavam e ensinavam, de maneira agradável e lúdica, canalizando as energias das crianças numa produção frutífera.
 
1 Propaganda I
Propaganda da época
 
Assim, as meninas produziam roupas para as bonecas e até utilidades diversas para seu uso, desenvolvendo o prazer e admiração pelas suas obras físicas, em ações tangíveis.
 
A atenção, controle, planejamento e compenetração conferidos ao ato de costurar, consistiam em ótimo aprimoramento para as atividades profissionais quando adultas, úteis para toda a sua vida. Além do desempenho da costura doméstica, a profissão de costureira era bastante dignificada.
 
2 SofiaNossa neta (3 anos) e uma maquininha de nosso acervo
 
As máquinas infantis produziam ponto em cadeia (um fio), com regulagem de tensão da linha e de dimensão de ponto. Algumas com acionamento elétrico (pilhas) e outras, mais sofisticadas com pontos em zigzag, permitindo acabamentos em bainhas e decorativos.
 
Mas o motivo desta postagem é a aquisição e restauro de uma “Norita”:
Em viagem à Argentina, visitamos a AutoClasica, uma das maiores exposições de veículos antigos do mundo, entre 7 e 10 de outubro de 2016. Veja detalhes em: “www.felizmotorhome.blogspot.com.br”, na terceira parte da viagem.
 
Como já aconteceu em outras vezes, além dos tradicionais souvenires, adquirimos ali uma antiga maquininha infantil de costurar, marca NORITA, fabricada na Argentina na década de 60, a qual relatamos aqui o seu restauro.
 
3 propag NoritaPropaganda “Norita” da época
 
A maquininha estava em deplorável estado geral, mas aceitamos o desafio de restaurá-la.
 
4 original 5 bolhas
Rachaduras e “bolhas” por oxidação
 
Apresentava excessiva oxidação nas partes metálicas, faltando-lhe peças e várias rachaduras comprometiam seu arcabouço.
 
6 engr superior 7 inferior
Sistema mecânico superior e inferior travados
 
Todas as engrenagens estavam encravadas e seus eixos comprometidos por ferrugem, assim, como todas as partes (originalmente móveis) de seu sistema mecânico.
 
Inicialmente realizamos limpeza física, retirando habitáculos de insetos e sujidades acumuladas, para posterior aplicação de desencravantes para retirada de parafusos e todas as peças móveis.  Procedeu-se a liberação de eixos e engrenagens e desmontagem total.
Os componentes de aço (ferruginosos) tiveram leve torneamento (eixos) e posterior tratamento por desoxidante.
 
Algumas peças pequenas, como o acionador do eixo vertical, exageradamente corroído, tiveram de ser substituído por outros, executados em impressora 3D, por especial contribuição do filho Thiago.
 
8 peça 3DAcionador do eixo vertical refeito (azul)
 
O arcabouço, em zamac (liga de zinco, alumínio, magnésio e cobre), graças ao grande comprometimento por corrosão (profundas “cáries”), foi submetido à jato de alumínio, embora este procedimento consista em derradeira alternativa, pois consideramos perigoso por alterar as milimétricas dimensões de encaixes e alojamentos.
 
9 entrelaçador 10 sist inferior
Sistema mecânico inferior, entrelaçador, engrenagens e eixo.
 
O entrelaçador do sistema mecânico inferior e o tracionador do tecido tiveram superficial polimento, para manter suas dimensões e posterior proteção antioxidante, antes da montagem. Seu eixo sofreu leve torneamento, para posterior acoplamento.
 
11 detalhe 12 engr superior
Eixo e engrenagem superior restaurados e instalados
 
O sistema mecânico da parte superior, seus difíceis encaixes e parafusos, tiveram similar tratamento. Suas engrenagens foram ajustadas dentro dos limites de folgas. O volante de acionamento (zamac) foi retorneado, pintado na cor original da lateral da mesa assim como a carenagem superior.
 
A pintura do arcabouço da maquininha foi realizada na cor verde relva, já que possuirmos várias outras na tonalidade azul e, considerando  ser fabricada também originalmente neste matiz.
Os detalhes finais (regulador de tensão, manopla de acionamento, carretel de linha e suporte, adesivos, agulha, calcador, ...) foram trabalhados e instalados.
 
Com todo o conjunto motriz harmonizado com suficiente precisão, o trabalho de restauro foi dado como pleno sucesso.
 
AutoClas 5
 
Assim renascida, a pequena NORITA, desfila ativa e contente após décadas desprezada.
 
Prof. Eng. Darlou D’Arisbo

terça-feira, 20 de setembro de 2016

Restauro de uma New Home 1902–Publicação 08

 

“É vedada a utilização de quaisquer informações contidas nestas publicações, para fins lucrativos ou comerciais, sem autorização expressa de seu autor, sob pena de indenização judicial.”

 

No início do ano, recebi o contato de um proprietário de antiga máquina de costurar, interessado em nossos serviços de restauro. Dois detalhes despertaram-me curiosidade: A máquina estava no extremo norte do país, do outro lado do equador e, o elemento desafiador: completamente enferrujada, pois havia ficado por anos submetida às intempéries.  As fotos recebidas revelavam-na tal uma escultura, grosseiramente  talhada em terracota.

Apostei positivamente no desafio e, semanas após, recebi via SEDEX a máquina, cuja descrição anterior confirmava sua aparente irremediável situação.

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Arruinada, com mecanismo encravado

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Parte interna da fronte, após difícil retirada

Com procedimentos cuidadosos, alternando choques térmicos e dinâmicos, em algumas semanas consegui desmontá-la, removendo ninhos de insetos e, arduamente, descobrindo localização de parafusos e pequenas peças, camuflados pela densa oxidação.

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“Residência” de aracnídeos e parafusos camuflados

Após trabalho de raspagem por abrasão (esfoladura direta com espátulas de aço), as peças grandes foram tratadas com antioxidante e posterior inibidor de reoxidação. As peças pequenas tiveram tratamento similar delicado, submetidos posteriormente à escovação mecânica e leve desbaste em torneamento. O polimento nas peças móveis evitou retirar as “caries” resultantes da corrosão, pois as folgas aumentadas alterariam (ou impediriam) os movimentos. Assim, micrometricamente, foram submetidas aos limites dimensionais que permitissem preservar sua dinamicidade funcional.

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Bloco superior após desoxidante e remoção delicada, realizada com mini retífica

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Algumas peças do mecanismo da base e fronte já submetidas aos tratamentos

Como o sistema mecânico da parte inferior encontrava-se em estado de impossível desmontagem e recuperação, com seus eixos solidarizados nos mancais, cogitou-se em eliminar este conjunto, por isolamento, possibilitando o movimento apenas da parte superior e permitindo a aparência de funcionamento.

Porém, depois de muitas tentativas, com diferentes procedimentos (choques dinâmicos, térmicos,...), em alguns dias conseguimos desmontar o sistema mecânico inferior. Algumas peças vergaram, outras apresentaram leve torção ao serem retiradas.  Tal situação  exigiu sequente aplicação de calor (maçarico) para voltarem à forma original, com extremo cuidado para evitar fraturas ou alteração de dimensões. Muitas destas peças necessitaram também leve retorneamento, evitando comprometer a transmissão de movimentos.

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De nosso acervo outra New Home serviu de “doadora”

Possuímos em nosso acervo uma New Home semelhante, considerada irrecuperável, embora com o mecanismo superior em funcionamento. Esta então consistiu em doadora de algumas peças para a máquina em restauro: tampa da lançadeira, parafusos, jumelos de articulação, buchas de mancal, passadores de fio, etc… 

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O sistema inferior desmontado 

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Retorneamento do eixo horizontal e polimento da embreagem

Com as engrenagens cônicas limpas e assentadas, respectivamente no eixo horizontal retorneado e no vertical, fizemos o polimento da embreagem.  A tampa lateral foi ajustada e colocada.

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Parte inferior já montada e funcional

O mecanismo da parte inferior teve todos os eixos retorneados, assim como os parafusos, mantendo as roscas originais (não são similares às atuais). Algumas buchas de bronze foram adaptadas às dimensões restauradas, com destaque à conicidade da bucha central. O regulador do espaçamento dos pontos de costura foi refrisado, assim como o cursor, seu trilho e apoios.

Os componentes de acionamento dos dentes impelentes foram, de maneira semelhante, trabalhados e regulados.

dentes impelentes

Peças delicadas na abrasão final com escova metálica rotativa.

O sistema mecânico de preenchimento da lançadeira, aparentemente irrecuperável, tomado por grossa ferrugem, comprometendo os minúsculos dentes de suas pequenas engrenagens, teve uma dedicação minuciosa, recompondo sua micrométrica endentação, excêntricos, eixos,... Esta tarefa constituiu-se de devotada minúcia ao refazer cada um  das dezenas de dentinhos da coroa, com micro limas mantendo as dimensões suficientes para continuar os movimentos.  Assim também na rosca-sem-fim do eixo e todas suas articulações.

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Preenchedor da lançadeira já preparado para ajuste

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Regulador superior de pressão

O regulador da linha foi construído com chapa inoxidável, termicamente envelhecido, com preensor de latão adaptado e parafuso fixador retorneado.

Embora esta New Home fosse originariamente acionada a pedal, por solicitação do proprietário (e nossa concordância) e com a finalidade meramente expositiva residencial, foi instalada em base de  madeira, semelhante às “portáteis” manuais da época.

Parte desta “mesinha” foi retirada de uma doadora New Home e adaptada.  A parte lateral inferior de madeira foi “importada” da Argentina (Sodimac), com perfil semelhante às bases então existentes.

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Curioso mecanismo de preenchimento da lançadeira e fronte, instalados

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Completa, aguardando ajuste final e complementos

Foi-lhe aplicada pintura preta (esmalte sintético), sobre proteção contra reoxidações, com cuidado para não mascarar suas marcas da idade. Depois, montada, para ajustamentos finais e acessórios.

A conclusão do restauro da New Home excedeu às normas adotadas pelo nosso acervo, no que tange à decoração nela adesivada.  Nas nossas máquinas, limitamo-nos a mantê-las funcionais como estavam em seu período nobre de trabalho, sem os adesivos ou decoração, pois estariam gastos pela utilização.  Mas, considerando a singularidade não museológica, resolvemos inseri-los, em conformidade com o proprietário.

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A centenária New Home ressurge à dinâmicidade viva

Segue o link do vídeo com o curioso funcionamento do preenchedor da lançadeira (da presente máquina recuperada), demonstrado com o auxílio de uma furadeira: 

https://plus.google.com/photos/photo/103980935723936250359/6332570440902161618?icm=false&authkey=CMGcqYewms2Q5QE

 

Agradecimentos

Ao Supremo Criador) que sempre me iluminou, principalmente nos momentos de dúvida na continuidade desta empreitada, provendo-me de persistência (inarredável) e norteando-me com ânimo, onde muitas vezes cogitei amputar partes de seu mecanismo, para preservar outros. 

À minha querida esposa Sandra, que soube apoiar-me, com idéias, sugestões e o mais presente incentivo. 

Ao Sr. Claudio Coppini (Toledo Tintas)  que, por décadas tem conseguido as difíceis tonalidades nas tintas necessárias para os restauros. 

À AXIS Comunicação (Toledo – PR)  que produziu, com perícia e presteza os adesivos que a adornaram. 

Ao Sr. Sidnei Serra, colecionador de Rio Grande – RS, que forneceu as minúsculas e indispensáveis limas.

E o especial preito de gratidão  aos proprietários  desta centenária máquina,  os quais depositaram plena e total confiança em nossos serviços, para o prodigioso resgate de parte da história da família.   

 

Prof. Eng. Darlou D’Arisbo

setembro de 2016

quarta-feira, 22 de junho de 2016

A hermética sociedade dos cupins–Publicação 07



(Terror dos colecionadores e restauradores)

Os cupins (térmitas) são insetos que abundam nos trópicos, alimentando-se de celulose (C6H10O5), constituinte das paredes das células vegetais de madeira seca.

Entomologicamente são denominados termitídeos (Cryptotermes brevis), com cerca de 1.000 espécies conhecidas (no Brasil umas 200) e constituem importantes pragas urbanas, pois danificam o madeiramento de construção, móveis, livros,...

Não devemos confundir com os cupins subterrâneos (Coptotermes havilandi), espécie que habita terrenos, formando montículos e causando prejuízos em pastagens e lavouras.

Além daqueles térmitas, também as brocas (larvas) atacam a madeira. Estas, diferenciam dos cupins pela produção de resíduos com a aparência de pó e por construírem túneis curtos e de maior diâmetro. As brocas são larvas de besouros (não adultos), cujas fêmeas após o acasalamento perfuram a madeira e ali põem os ovos. Atingem a fase adulta em meses (alguns demoram anos).



Broca da madeira (gentileza dddrin)

Nos Estados Unidos e Canadá (onde a maioria das residências é de madeira), uma pesquisa concluiu que uma colônia de cupins, com milhões de indivíduos, pode consumir 360 gramas de madeira por dia. São capazes de destruir um vigamento de telhado em poucas semanas, causando desabamentos (incêndios decorrentes) e destruição de móveis, livros,...
 

Devemos observar as revoadas nupciais (normalmente no verão), quando as colônias de cupins liberam os siriris (ou aleluias), térmitas com asas que irão formar novas colônias. E a presença de asas ou siriris mortos próximos de janelas e de lâmpadas (atraídos pela luz) é claro sinal de colônias de cupins próximas. 


Cupim temporariamente alado (siriri ou aleluia)

A existência de grânulos fecais (fezes de cupins) junto aos móveis, portas e batentes, confirmam a infestação destes.

É difícil avaliar o tamanho de uma infestação, pois seus túneis sempre orientam às conclusões erradas e os seus dejetos podem ser armazenados por anos.

Embora os inseticidas matem os cupins, é comprovadamente impossível que estes produtos (mesmo gases) percorram os estratégicos labirintos, muitos bloqueados por paredes de cera.

A sua alimentação é a celulose, encontrada em qualquer material que a contenha (livros, antiguidades, carpetes, papel de parede, móveis, etc.). Algumas madeiras são naturalmente inatacáveis por cupins, tais como: peroba, jacarandá, pau ferro, braúna, sucupira, copaíba, maçaranduba ...

Embora os cupins não representem, diretamente, perigo para nossa saúde, pois nenhuma patologia possui relação direta com estes insetos, esta praga esteja cada vez mais presente.



As castas da sociedade

Infelizmente (defesa dos cupins), normalmente constatamos a presença da praga quando os estragos já são irreversíveis e, na falta de informações abalizadas e científicas, a crendice popular leva a combate ineficaz, agravando o problema.

Os cupins mantém uma sociedade perfeita e se organizam em castas, tendo uma rainha que comanda a reprodução, soldados que se encarregam de defesa, operários que buscam alimentação e por fim os siriris que possuindo asas, revoam para formarem novas colônias, perpetuando assim a espécie.

A rainha, que pode viver por décadas, possui a função específica de acasalar e ovopositar. Os outros, exclusivos, tratam da sua alimentação e segurança. Milhares de ovos, com cerca de 3mm cada, são produzidos por ela a cada ano e ficam incubados por duas semanas até nascer as ninfas, que se alimentam de resíduos regurgitados por operários que as cuidam e tratam. 


Rainha, prestes a ovopositar

Após diversos estágios de crescimento, geneticamente programados, assumem a determinada e exclusiva posição nas castas.

Os reprodutores adultos desenvolvem órgãos sexuais, asas e os seus olhos tornam-se funcionais. Em determinado momento, deixam a colônia em enxameamento, simultaneamente, nos meses mais quentes. Como estes tem dificuldade para percorrer os túneis, até a saída, operários os “empurram” até a saída.

Após encontrar um local propício, normalmente próximo, perdem as asas e instalam-se. A melhor fêmea torna-se rainha, é fecundada e iniciam ali nova colônia, cujos ovos formarão ninfas, soldados, operários e reprodutores. 



Enxameamento alado

Os operários, estéreis e cegos, são ávidos por celulose, alimento básico para toda a colônia. Alguns também atuam na segurança e alimentação da rainha, ovos e ninfas. Trabalham 24 horas por dia, perfurando o interior das madeiras, construindo galerias e câmaras. Para melhor segurança, criam labirintos com câmaras, depósitos de dejetos e bloqueiam caminhos com paredes de cera.

Os soldados, ao final do estágio de crescimento, adquirem uma blindagem na cabeça e fortes mandíbulas. Aguerridos, são preparados para defender a colônia dos inimigos, especialmente das formigas. 



Térmitas operários


Conclusão:

Os ataques à madeira são aniquiladores, destruindo portas, mobílias e peças constituídas com o material. Infelizmente, as infestações são notadas após vários anos da instalação inicial, quando já é difícil combater a praga instalada ou recuperar a peça atingida. Como são lucífugos (não aparecem à luz), deslocam-se sorrateiramente nas galerias cavadas.

Para saber de sua existência, podemos atentar a três fatores:
1. Observar as revoadas (parecem formigas com asas) nos meses quentes;
2. Notar a existência de seus resíduos fecais (minúsculos grãos secos <1mm), normalmente saídos de galerias já lotadas;
3. Perceber som “oco” ao bater em madeiras atacadas.

Saiba-se, porém, que estas lamentáveis constatações ocorrem após muitos anos de infestação, pois décadas podem transcorrer sem a confirmação da existência dos cupins, já instalados.

Muitos produtos são divulgados como cupinicidas exterminadores. Mas embora suas formulações sejam adequadas (pós, líquidos ou gases), torna-se impossível o contato com os cupins, devido aos bloqueios que eles constroem nos imensos e inacessíveis labirintos.

Às tais dificuldades, acrescente-se a “inteligência” construtiva e organização social deles; executando túneis, desviando orifícios ou encaixes, evitando atingir superfícies, para não deixar sinais visíveis. Ao abrir a madeira de algumas antiguidades, nós constatamos labirintos com bloqueios construídos por paredes de cera, para evitar comunicação.

Embora cegos e surdos, possuem sensores às frequências da luz e do som, evitando proximidades que possam denunciá-los. E, os seus excrementos, só são liberados ao exterior,muitos anos após a instalação, quando os depósitos internam não mais comportam.



Interior de tampo de máquina de costurar seriamente atacado por cupins e depois de restaurado

Evitam-se novas incursões, aplicando produtos líquidos (cupinicidas) sobre as superfícies, somente após a certeza de ainda não estarem infectadas.

O combate efetivo e satisfatório só ocorre quando alteradas suas condições mínimas de sobrevivência. E, como seus limites suportáveis de temperatura, situam-se entre os -5ºC e os 70ºC (cinco graus negativos e setenta graus positivos), dependendo das dimensões das peças, a colocação destas em forno (microondas é ótimo), por uma hora ou partes grandes em freezer (câmara frigorífica), por uma semana, são indicações com bons resultados comprovados.
 

Realizamos algumas experiências, colocando peças de madeira atacadas por cupins em câmaras frias (-18ºC) por cinco dias. Ao abrir as peças, constatamos curiosas aglomerações com centenas de térmitas soldados mortos, cobrindo em proteção a rainha e ninfas, na tentativa de preservar-lhes o calor necessário para sobrevivência.
Somente observados mais conhecimentos sobre sua perfeita sociedade e instinto de sobrevivência, poderemos obter sucesso no domínio desta praga.

Publico estas informações, após muito pesquisar sobre a sociedade dos cupins e com a intenção de alertar aos interessados na preservação e restauro de antiguidades. 


Prof. Darlou D'Arisbo
restauro.antique@yahoo.com.br
 





sábado, 12 de dezembro de 2015

Restauro de uma Clemens Muller 1898 - 006

Ao visitar um paradisíaco resort (www.riodorastro.com.br/) encontrei ali uma histórica máquina de costurar Clemens Muller, como decoração de ambiente. Como a máquina merecia um bom restauro, ofereci meus préstimos aos proprietários, que aceitaram com satisfação.
Uma criteriosa análise preliminar revelou que, apesar da aparência, ela estava quase completa, cujas peças desgastadas poderiam ser recuperadas e as faltantes refeitas.
Trouxe-a para nossa oficina e iniciei a desmontagem, com alguma dificuldade, pois todas as partes móveis estavam encravadas, assim como fundidas juntas. Além disso, as várias camadas de pintura sobre partes oxidadas comprometiam seus detalhes em baixo relevo.


  Antes do Restauro
 
A indústria Clemens Muller (Dresden - 1870) foi a primeira fábrica alemã de máquinas de costurar, com a associação de L.O. Dietrich, G. Winselmann, e H. Kohler, todos depois fabricantes de suas próprias marcas (Vesta, Titan, Kohler e outras). A prosperidade da empresa foi tão grande que, em 1880, fabricou 200.000 e, em seu auge (1930) mais de 3 milhões de máquinas. Na 2ª Guerra, passou a produzir material bélico, sendo dizimada pelos aliados, incluindo seu arquivo de registro.
Nosso “Museu de Antigas Máquinas Manuais de Costurar” (MAMC), dentre duas centenas de outras, possui mais de 40 Clemens Muller, fabricadas entre 1880 e 1930, todas aqui restauradas, o que testemunha e assegura nossa competência e honestidade neste desempenho. 


A máquina teve identificada sua fabricação e o autêntico número de série

Ao abrir sua lateral, verifiquei que a engrenagem cônica superior do eixo vertical possuía dois dentes faltantes e, como não havia restos deles no habitáculo, concluí que o acidente ocorreu há muito tempo e já teriam sido retirados.
Após a liberação dos eixos e engrenagens, optei por limagem, aprofundando os demais sulcos e aproximando seus contatos. Descartei a substituição por engrenagens plásticas ou as onerosas metálicas alemãs, considerando o firme princípio da manutenção de sua originalidade.
Os trilhos dos eixos da fronte, também bastante oxidados, mereceram desmonte, aplicação de desoxidante e leve polimento.


Trilhos da fronte e  Dentes quebrados
 
Os eixos foram levemente torneados, suficiente para permitir movimento e evitando aumentar as folgas decorrentes de seu secular funcionamento.
O sistema inferior cursor da lançadeira também estava encravado, foi removido e suas partes trabalhadas

 

 Cursor da lançadeira e orbital da fronte, oxidados



 Logotipo, após primeira limpeza e torneamento do eixo da lançadeira
 
A adaptação de todas as peças mereceu um trabalho específico, exclusivo e individual. Embora possuamos reserva técnica, com possíveis doadoras de peças, prefiro sempre manter a originalidade da máquina a ser restaurada.
Assim como o geral, o conjunto do rebobinador também se apresentava engripado, com eixos oxidados e cobertos por várias camadas de tinta, solidarizado tal uma peça única e rígida.


Rebobinador antes e depois de restaurado, semi montado.
 
Alguns parafusos estavam quebrados, tiveram seus restos retirados, locais e sedes refurados e suas roscas refeitas, dentro dos padrões da época, quais sejam: cabeça cilíndrica, torque por fenda, passo e diâmetros “polegada”,...
Todas as peças móveis (cerca de meia centena) foram individual e particularmente tratadas (desmonte, limpeza, desoxidação, polimento,...), algumas reconstruídas ou recuperadas.
 

 
Limpeza dos dentes impelentes por abrasão e algumas peças da fronte restauradas.
 
A desmontagem das peças móveis impõe organização, ordem e método, para seguirem caminhos distintos de restauro e depositários de guarda, devidamente identificados, evitando extravios ou equívocos nas sequências na recomposição.
O conjunto estrutural não foi desmontado (ocorre apenas em raríssima exceção), pois toda a complexa “árvore” do sistema mecânico poderá não mais adaptar-se perfeitamente.
Sua pré-limpeza foi efetuada com pincel (sem utilização de solventes), delicada e importantíssima, pois é capaz de encontrar indícios de identificação ou detalhes que caracterizam procedimentos de utilização (pedaços de linha, de tecidos, de alfinetes ou agulhas,...).

 
Engrenagem maior (coroa) e volante de acionamento já recuperados
 
Em outras máquinas já encontrei fragmentos de jornais (definem datas) com caligrafia antiga (“pharmácia”,..), anotações de valores (em “mil réis”) e de dimensões de roupas, fragmentos de insetos noturnos e outras peculiaridades decisivas na pesquisa e que identificam sua época e até turnos de trabalho.
A partir desta etapa, com o sistema mecânico (móvel) básico já retirado, foram iniciadas as etapas de limpeza. Inicialmente, realizada leve aplicação de solventes para desagregar restos de lubrificação carbonizada, firmemente incorporados durante um século. Estas aplicações são repetidas várias vezes, com intervalos de 24 horas.
As partes corroídas por oxidação exigem procedimento abrasivo (raspagem, lixamento,..), seguido de desoxidação, aplicação de camada fosfatizante e pintura protetora.
 
Conjunto estrutural com aplicação de fosfatizante, inibidor de oxidação
 
Na fase sequente, empregados detergentes neutros e abluções com água tépida, até completa retirada dos restos. Após, desoxidante e, depois de nova limpeza, aplicada solução de fosfatizante protetor para evitar reoxidação.
Jamais se aplica “jato de areia ou de granalha” para remover corrosão ou pintura antiga. Esta atitude, em partes móveis evidencia imperícia, pois danifica por abrasão os componentes (engrenagens, encaixes,...), retirando a proteção original das partes, alterando sua patente originalidade funcional e seus ajustes, podendo até eliminar alguma identificação impressa em baixo relevo.
É conveniente ressaltar a necessária delicadeza em todas as etapas, sempre com ferramental apropriado e esforços compatíveis, pois a constituição das peças, em aço de baixa resistência, é facilmente quebradiça à impactos.

 

 Limpeza pontual por abrasão com mini-retífica e aplicação de desoxidante
 

Preenchimento com corante aglutinado nas falhas de pintura e base metálica
 
A base metálica, também constituída em aço de baixa resistência, após todo o processo de abrasão, desoxidação e fosfatização, foi completamente coberta com esmalte sintético, pois suas antigas e muitas camadas de tinta dissimulavam os belos desenhos em baixo relevo.
 



Dentre as tantas partes recuperadas, restauradas ou executadas, o torneamento, polimento e regulagem das peças móveis constituíram o maior desafio e tempo disponibilizado. Assim como alguns suplementos, que tiveram origem histórica e longínqua, dos quais destacamos:
O antigo carretel de madeira, perfeito, completo e original, com linha branca, preservado e recebido por doação pelos descendentes de falecida costureira paulista.
A agulha, modelo raríssimo, de utilização e encaixe exclusivo para estas centenárias máquinas, é uma preciosidade, fabricada na República Theca. Seu alinhamento e sincronismo, coincidindo a fresa do eixo vertical, a fenda do calcador, o orifício da placa base e o cursor da lançadeira consistiram em conjunto de árduas tarefas, durante vários dias, também com final feliz.
 


Após restaurada, a condição geral desta ilustre Clemens Muller demonstrou ser satisfatória, sem falhas de funcionamento ou folgas exageradas, apresentando-se tal como em sua primorosa época de atividade.
Certamente merecerá um digno lugar de destaque, concernente à sua patente e histórica nobreza. 
 

O procedimento de restauro excede a mera cirurgia estética, mas sim complexa e funcional. Nosso procedimento, alicerçado em quatro décadas de pesquisas, capacitam a desenvolver profissionalismo e habilidade, suficientes para aplicá-los na reconstituição física dos objetos e recuperação de sua história. Estamos sempre abertos a quaisquer atualizações que resultem em melhor solução, principalmente na preservação das antigas máquinas manuais de costurar, este importantíssimo instrumento mecânico, que foi decisivo participante na evolução mecânica e humana. 
 
Prof. Eng. Darlou D’Arisbo
dezembro de 2015