quarta-feira, 22 de junho de 2016

A hermética sociedade dos cupins–Publicação 07



(Terror dos colecionadores e restauradores)

Os cupins (térmitas) são insetos que abundam nos trópicos, alimentando-se de celulose (C6H10O5), constituinte das paredes das células vegetais de madeira seca.

Entomologicamente são denominados termitídeos (Cryptotermes brevis), com cerca de 1.000 espécies conhecidas (no Brasil umas 200) e constituem importantes pragas urbanas, pois danificam o madeiramento de construção, móveis, livros,...

Não devemos confundir com os cupins subterrâneos (Coptotermes havilandi), espécie que habita terrenos, formando montículos e causando prejuízos em pastagens e lavouras.

Além daqueles térmitas, também as brocas (larvas) atacam a madeira. Estas, diferenciam dos cupins pela produção de resíduos com a aparência de pó e por construírem túneis curtos e de maior diâmetro. As brocas são larvas de besouros (não adultos), cujas fêmeas após o acasalamento perfuram a madeira e ali põem os ovos. Atingem a fase adulta em meses (alguns demoram anos).



Broca da madeira (gentileza dddrin)

Nos Estados Unidos e Canadá (onde a maioria das residências é de madeira), uma pesquisa concluiu que uma colônia de cupins, com milhões de indivíduos, pode consumir 360 gramas de madeira por dia. São capazes de destruir um vigamento de telhado em poucas semanas, causando desabamentos (incêndios decorrentes) e destruição de móveis, livros,...
 

Devemos observar as revoadas nupciais (normalmente no verão), quando as colônias de cupins liberam os siriris (ou aleluias), térmitas com asas que irão formar novas colônias. E a presença de asas ou siriris mortos próximos de janelas e de lâmpadas (atraídos pela luz) é claro sinal de colônias de cupins próximas. 


Cupim temporariamente alado (siriri ou aleluia)

A existência de grânulos fecais (fezes de cupins) junto aos móveis, portas e batentes, confirmam a infestação destes.

É difícil avaliar o tamanho de uma infestação, pois seus túneis sempre orientam às conclusões erradas e os seus dejetos podem ser armazenados por anos.

Embora os inseticidas matem os cupins, é comprovadamente impossível que estes produtos (mesmo gases) percorram os estratégicos labirintos, muitos bloqueados por paredes de cera.

A sua alimentação é a celulose, encontrada em qualquer material que a contenha (livros, antiguidades, carpetes, papel de parede, móveis, etc.). Algumas madeiras são naturalmente inatacáveis por cupins, tais como: peroba, jacarandá, pau ferro, braúna, sucupira, copaíba, maçaranduba ...

Embora os cupins não representem, diretamente, perigo para nossa saúde, pois nenhuma patologia possui relação direta com estes insetos, esta praga esteja cada vez mais presente.



As castas da sociedade

Infelizmente (defesa dos cupins), normalmente constatamos a presença da praga quando os estragos já são irreversíveis e, na falta de informações abalizadas e científicas, a crendice popular leva a combate ineficaz, agravando o problema.

Os cupins mantém uma sociedade perfeita e se organizam em castas, tendo uma rainha que comanda a reprodução, soldados que se encarregam de defesa, operários que buscam alimentação e por fim os siriris que possuindo asas, revoam para formarem novas colônias, perpetuando assim a espécie.

A rainha, que pode viver por décadas, possui a função específica de acasalar e ovopositar. Os outros, exclusivos, tratam da sua alimentação e segurança. Milhares de ovos, com cerca de 3mm cada, são produzidos por ela a cada ano e ficam incubados por duas semanas até nascer as ninfas, que se alimentam de resíduos regurgitados por operários que as cuidam e tratam. 


Rainha, prestes a ovopositar

Após diversos estágios de crescimento, geneticamente programados, assumem a determinada e exclusiva posição nas castas.

Os reprodutores adultos desenvolvem órgãos sexuais, asas e os seus olhos tornam-se funcionais. Em determinado momento, deixam a colônia em enxameamento, simultaneamente, nos meses mais quentes. Como estes tem dificuldade para percorrer os túneis, até a saída, operários os “empurram” até a saída.

Após encontrar um local propício, normalmente próximo, perdem as asas e instalam-se. A melhor fêmea torna-se rainha, é fecundada e iniciam ali nova colônia, cujos ovos formarão ninfas, soldados, operários e reprodutores. 



Enxameamento alado

Os operários, estéreis e cegos, são ávidos por celulose, alimento básico para toda a colônia. Alguns também atuam na segurança e alimentação da rainha, ovos e ninfas. Trabalham 24 horas por dia, perfurando o interior das madeiras, construindo galerias e câmaras. Para melhor segurança, criam labirintos com câmaras, depósitos de dejetos e bloqueiam caminhos com paredes de cera.

Os soldados, ao final do estágio de crescimento, adquirem uma blindagem na cabeça e fortes mandíbulas. Aguerridos, são preparados para defender a colônia dos inimigos, especialmente das formigas. 



Térmitas operários


Conclusão:

Os ataques à madeira são aniquiladores, destruindo portas, mobílias e peças constituídas com o material. Infelizmente, as infestações são notadas após vários anos da instalação inicial, quando já é difícil combater a praga instalada ou recuperar a peça atingida. Como são lucífugos (não aparecem à luz), deslocam-se sorrateiramente nas galerias cavadas.

Para saber de sua existência, podemos atentar a três fatores:
1. Observar as revoadas (parecem formigas com asas) nos meses quentes;
2. Notar a existência de seus resíduos fecais (minúsculos grãos secos <1mm), normalmente saídos de galerias já lotadas;
3. Perceber som “oco” ao bater em madeiras atacadas.

Saiba-se, porém, que estas lamentáveis constatações ocorrem após muitos anos de infestação, pois décadas podem transcorrer sem a confirmação da existência dos cupins, já instalados.

Muitos produtos são divulgados como cupinicidas exterminadores. Mas embora suas formulações sejam adequadas (pós, líquidos ou gases), torna-se impossível o contato com os cupins, devido aos bloqueios que eles constroem nos imensos e inacessíveis labirintos.

Às tais dificuldades, acrescente-se a “inteligência” construtiva e organização social deles; executando túneis, desviando orifícios ou encaixes, evitando atingir superfícies, para não deixar sinais visíveis. Ao abrir a madeira de algumas antiguidades, nós constatamos labirintos com bloqueios construídos por paredes de cera, para evitar comunicação.

Embora cegos e surdos, possuem sensores às frequências da luz e do som, evitando proximidades que possam denunciá-los. E, os seus excrementos, só são liberados ao exterior,muitos anos após a instalação, quando os depósitos internam não mais comportam.



Interior de tampo de máquina de costurar seriamente atacado por cupins e depois de restaurado

Evitam-se novas incursões, aplicando produtos líquidos (cupinicidas) sobre as superfícies, somente após a certeza de ainda não estarem infectadas.

O combate efetivo e satisfatório só ocorre quando alteradas suas condições mínimas de sobrevivência. E, como seus limites suportáveis de temperatura, situam-se entre os -5ºC e os 70ºC (cinco graus negativos e setenta graus positivos), dependendo das dimensões das peças, a colocação destas em forno (microondas é ótimo), por uma hora ou partes grandes em freezer (câmara frigorífica), por uma semana, são indicações com bons resultados comprovados.
 

Realizamos algumas experiências, colocando peças de madeira atacadas por cupins em câmaras frias (-18ºC) por cinco dias. Ao abrir as peças, constatamos curiosas aglomerações com centenas de térmitas soldados mortos, cobrindo em proteção a rainha e ninfas, na tentativa de preservar-lhes o calor necessário para sobrevivência.
Somente observados mais conhecimentos sobre sua perfeita sociedade e instinto de sobrevivência, poderemos obter sucesso no domínio desta praga.

Publico estas informações, após muito pesquisar sobre a sociedade dos cupins e com a intenção de alertar aos interessados na preservação e restauro de antiguidades. 


Prof. Darlou D'Arisbo
restauro.antique@yahoo.com.br
 





sábado, 12 de dezembro de 2015

Restauro de uma Clemens Muller 1898 - 006

Ao visitar um paradisíaco resort (www.riodorastro.com.br/) encontrei ali uma histórica máquina de costurar Clemens Muller, como decoração de ambiente. Como a máquina merecia um bom restauro, ofereci meus préstimos aos proprietários, que aceitaram com satisfação.
Uma criteriosa análise preliminar revelou que, apesar da aparência, ela estava quase completa, cujas peças desgastadas poderiam ser recuperadas e as faltantes refeitas.
Trouxe-a para nossa oficina e iniciei a desmontagem, com alguma dificuldade, pois todas as partes móveis estavam encravadas, assim como fundidas juntas. Além disso, as várias camadas de pintura sobre partes oxidadas comprometiam seus detalhes em baixo relevo.


  Antes do Restauro
 
A indústria Clemens Muller (Dresden - 1870) foi a primeira fábrica alemã de máquinas de costurar, com a associação de L.O. Dietrich, G. Winselmann, e H. Kohler, todos depois fabricantes de suas próprias marcas (Vesta, Titan, Kohler e outras). A prosperidade da empresa foi tão grande que, em 1880, fabricou 200.000 e, em seu auge (1930) mais de 3 milhões de máquinas. Na 2ª Guerra, passou a produzir material bélico, sendo dizimada pelos aliados, incluindo seu arquivo de registro.
Nosso “Museu de Antigas Máquinas Manuais de Costurar” (MAMC), dentre duas centenas de outras, possui mais de 40 Clemens Muller, fabricadas entre 1880 e 1930, todas aqui restauradas, o que testemunha e assegura nossa competência e honestidade neste desempenho. 


A máquina teve identificada sua fabricação e o autêntico número de série

Ao abrir sua lateral, verifiquei que a engrenagem cônica superior do eixo vertical possuía dois dentes faltantes e, como não havia restos deles no habitáculo, concluí que o acidente ocorreu há muito tempo e já teriam sido retirados.
Após a liberação dos eixos e engrenagens, optei por limagem, aprofundando os demais sulcos e aproximando seus contatos. Descartei a substituição por engrenagens plásticas ou as onerosas metálicas alemãs, considerando o firme princípio da manutenção de sua originalidade.
Os trilhos dos eixos da fronte, também bastante oxidados, mereceram desmonte, aplicação de desoxidante e leve polimento.


Trilhos da fronte e  Dentes quebrados
 
Os eixos foram levemente torneados, suficiente para permitir movimento e evitando aumentar as folgas decorrentes de seu secular funcionamento.
O sistema inferior cursor da lançadeira também estava encravado, foi removido e suas partes trabalhadas

 

 Cursor da lançadeira e orbital da fronte, oxidados



 Logotipo, após primeira limpeza e torneamento do eixo da lançadeira
 
A adaptação de todas as peças mereceu um trabalho específico, exclusivo e individual. Embora possuamos reserva técnica, com possíveis doadoras de peças, prefiro sempre manter a originalidade da máquina a ser restaurada.
Assim como o geral, o conjunto do rebobinador também se apresentava engripado, com eixos oxidados e cobertos por várias camadas de tinta, solidarizado tal uma peça única e rígida.


Rebobinador antes e depois de restaurado, semi montado.
 
Alguns parafusos estavam quebrados, tiveram seus restos retirados, locais e sedes refurados e suas roscas refeitas, dentro dos padrões da época, quais sejam: cabeça cilíndrica, torque por fenda, passo e diâmetros “polegada”,...
Todas as peças móveis (cerca de meia centena) foram individual e particularmente tratadas (desmonte, limpeza, desoxidação, polimento,...), algumas reconstruídas ou recuperadas.
 

 
Limpeza dos dentes impelentes por abrasão e algumas peças da fronte restauradas.
 
A desmontagem das peças móveis impõe organização, ordem e método, para seguirem caminhos distintos de restauro e depositários de guarda, devidamente identificados, evitando extravios ou equívocos nas sequências na recomposição.
O conjunto estrutural não foi desmontado (ocorre apenas em raríssima exceção), pois toda a complexa “árvore” do sistema mecânico poderá não mais adaptar-se perfeitamente.
Sua pré-limpeza foi efetuada com pincel (sem utilização de solventes), delicada e importantíssima, pois é capaz de encontrar indícios de identificação ou detalhes que caracterizam procedimentos de utilização (pedaços de linha, de tecidos, de alfinetes ou agulhas,...).

 
Engrenagem maior (coroa) e volante de acionamento já recuperados
 
Em outras máquinas já encontrei fragmentos de jornais (definem datas) com caligrafia antiga (“pharmácia”,..), anotações de valores (em “mil réis”) e de dimensões de roupas, fragmentos de insetos noturnos e outras peculiaridades decisivas na pesquisa e que identificam sua época e até turnos de trabalho.
A partir desta etapa, com o sistema mecânico (móvel) básico já retirado, foram iniciadas as etapas de limpeza. Inicialmente, realizada leve aplicação de solventes para desagregar restos de lubrificação carbonizada, firmemente incorporados durante um século. Estas aplicações são repetidas várias vezes, com intervalos de 24 horas.
As partes corroídas por oxidação exigem procedimento abrasivo (raspagem, lixamento,..), seguido de desoxidação, aplicação de camada fosfatizante e pintura protetora.
 
Conjunto estrutural com aplicação de fosfatizante, inibidor de oxidação
 
Na fase sequente, empregados detergentes neutros e abluções com água tépida, até completa retirada dos restos. Após, desoxidante e, depois de nova limpeza, aplicada solução de fosfatizante protetor para evitar reoxidação.
Jamais se aplica “jato de areia ou de granalha” para remover corrosão ou pintura antiga. Esta atitude, em partes móveis evidencia imperícia, pois danifica por abrasão os componentes (engrenagens, encaixes,...), retirando a proteção original das partes, alterando sua patente originalidade funcional e seus ajustes, podendo até eliminar alguma identificação impressa em baixo relevo.
É conveniente ressaltar a necessária delicadeza em todas as etapas, sempre com ferramental apropriado e esforços compatíveis, pois a constituição das peças, em aço de baixa resistência, é facilmente quebradiça à impactos.

 

 Limpeza pontual por abrasão com mini-retífica e aplicação de desoxidante
 

Preenchimento com corante aglutinado nas falhas de pintura e base metálica
 
A base metálica, também constituída em aço de baixa resistência, após todo o processo de abrasão, desoxidação e fosfatização, foi completamente coberta com esmalte sintético, pois suas antigas e muitas camadas de tinta dissimulavam os belos desenhos em baixo relevo.
 



Dentre as tantas partes recuperadas, restauradas ou executadas, o torneamento, polimento e regulagem das peças móveis constituíram o maior desafio e tempo disponibilizado. Assim como alguns suplementos, que tiveram origem histórica e longínqua, dos quais destacamos:
O antigo carretel de madeira, perfeito, completo e original, com linha branca, preservado e recebido por doação pelos descendentes de falecida costureira paulista.
A agulha, modelo raríssimo, de utilização e encaixe exclusivo para estas centenárias máquinas, é uma preciosidade, fabricada na República Theca. Seu alinhamento e sincronismo, coincidindo a fresa do eixo vertical, a fenda do calcador, o orifício da placa base e o cursor da lançadeira consistiram em conjunto de árduas tarefas, durante vários dias, também com final feliz.
 


Após restaurada, a condição geral desta ilustre Clemens Muller demonstrou ser satisfatória, sem falhas de funcionamento ou folgas exageradas, apresentando-se tal como em sua primorosa época de atividade.
Certamente merecerá um digno lugar de destaque, concernente à sua patente e histórica nobreza. 
 

O procedimento de restauro excede a mera cirurgia estética, mas sim complexa e funcional. Nosso procedimento, alicerçado em quatro décadas de pesquisas, capacitam a desenvolver profissionalismo e habilidade, suficientes para aplicá-los na reconstituição física dos objetos e recuperação de sua história. Estamos sempre abertos a quaisquer atualizações que resultem em melhor solução, principalmente na preservação das antigas máquinas manuais de costurar, este importantíssimo instrumento mecânico, que foi decisivo participante na evolução mecânica e humana. 
 
Prof. Eng. Darlou D’Arisbo
dezembro de 2015




terça-feira, 13 de outubro de 2015

Restauro de uma antiga “Vesta” - 004

 

As máquinas de costurar, marca Vesta, foram fabricadas pela empresa L.O. Dietrich, estabelecida originalmente em 1871, (consórcio L.O. Dietrich, H. Kohler e G. Winselmann), na cidade de Altenburg, Alemanha. Em 1905, com a dissolução da sociedade, Dietrich passou a produzir máquinas pequenas, econômicas e fáceis de manusear. Na década de 20, produziu dentre outras, a marca Vesta (deusa romana do fogo) até a segunda Grande Guerra.

A indústria, distinguida dentre as maiores, produziu sessenta e três marcas de máquinas de costurar, cujo sucesso foi comprovado, no auge de sua produção, por centenas de milhares de exemplares exportados, também para o Brasil.

Esta máquina, recebida por doação e em péssimo estado geral, apresentava travamento de todo o sistema móvel, oxidado e ainda com uma nociva aplicação de solução resinosa (supostamente tinta preta, pouco solubilizada, verniz ou óleo aglutinante). Uma espessa camada de poeira estava aderida a todo o conjunto.

1.197.454bParte móvel inferior,  já restaurada e montada

Seu desmonte, ainda que parcial, encontrou exagerada dificuldade, pois que as citadas resinas haviam penetrado pelos orifícios de lubrificação e pelas folgas do mecanismo, promovendo solidarização das partes antes móveis.

Fez-se necessário o sequente emprego de métodos abrasivos (raspagens, lixamento,...) com sucessivas aplicações de solubilizantes, pontuais e por imersão.

 ident  1.197.454a  Identificação do número de série e inscrição de fabricante

A pré limpeza foi efetuada com pincel (sem utilização de solventes), de maneira delicada e importantíssima, pois é capaz de encontrar indícios de identificação ou detalhes que caracterizam procedimentos de utilização (pedaços de linha, de tecidos, de alfinetes ou agulhas,...).

Já foram descobertos fragmentos de jornais com caligrafia antiga (“pharmácia”,..), dimensões de roupas, anotações de valores (em “mil réis”), datas e outras peculiaridades decisivas na pesquisa.

garantia Vesta

No interior de uma “Vesta”, encontramos seu certificado de garantia

No corpo da máquina, optou-se por manter as marcas de uso, incluindo retoques existentes de pintura, sendo retiradas apenas as sujidades comprometedoras de funcionamento.

Nossos critérios de restauro técnico evitam desmontes desnecessários, pois que toda e qualquer intervenção em equipamento mecânico antigo, pode produzir sequelas de difícil ou impossível solução, alterando suas folgas ou encaixes.

Assim, normalmente limitamos à retirada e limpeza das partes móveis necessárias, com aplicação de desoxidante, limpeza, ajustes, lubrificação adequada, troca de parafusos, de peças faltantes ou irrecuperáveis, no sentido de permitir a motricidade do sistema, compatível com sua idade e finalidade de utilização.

Eixo  Volante

O eixo do volante, preenchido e torneado, a engrenagem coroa e o volante.

Foram aplicados alguns pequenos cobrimentos de pigmento preto em locais sujeitos a oxidação e também suave limpeza nas partes ainda cromadas.

Na base de madeira, procedeu-se à retirada de escorrimentos de vernizes, manchas e respingos, disseminados pelo conjunto, por processo levemente abrasivo, mantendo a aparência original, sem alterar as marcas do tempo.  Foi aplicado produto antitérmitas (cupinicida), com sequente emprego de cera protetora.

 

Informação Oportuna:

Durante quatro décadas dedicadas ao restauro e preservação das antigas máquinas de costurar, sempre esbarramos na extrema dificuldade em conseguir agulhas específicas, assim como para esta “Vesta”. As agulhas atuais possuem a parte superior alargada e as adaptações por torneamento ou fresamento são operações perigosas e árduas, pelas reduzidas dimensões e dureza do aço.   (vide publicação 12 de nosso “museumaquinascosturar.blogspot.com.br”).

 coloc agulhaInstruções de colocação da agulha (Manual original Vesta)

Recentemente, porem, recebemos o auspicioso contato do Sr. Ivan Ternes (Itajaí – SC), informando ter conseguido as tais raridades na CADEDO (SP). Imediatamente contatamo-nos com a empresa (gentilmente atendidos) e adquirimos alguns exemplares delas, fabricadas na República Tcheca.   Estes elogiáveis procedimentos justificam a manutenção deste blog e incentivam nossa dedicação ao restauro.

agulhas  agulhas colocada

As preciosas agulhas Tchecas e já instalada na “Vesta

 

Esta “Vesta” foi a primeira máquina restaurada que utilizou a agulha citada.

VESTA A “Vesta” restaurada

Após restaurada, a condição geral da máquina demonstrou ser satisfatória, sem falhas de funcionamento ou folgas exageradas, apresentando-se tal como em sua época de atividade e pronta para ser acervada no nosso Museu de Antigas Máquinas de Costurar (MAMC).

A máquina de costurar é uma peça histórica e a sua preservação é indispensável, por traduzir um sistema mecânico característico, com a grande importância de sua finalidade de execução e conserto de vestimentas e afins, na época inexistentes ou difíceis fora do lar.

Nesta publicação, o agradecimento ao Sr. Ivan Ternes

 

Darlou D’Arisbo – Outubro de 2015

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Restauro da cafeteira quebrada - 03

 

“É vedada a utilização de quaisquer informações contidas nestas publicações, para fins lucrativos ou comerciais, sem autorização expressa de seu autor, sob pena de indenização judicial.”

Eu considero RESTAURO como o conjunto de operações para interromper o processo de deterioração de um objeto que testemunhe a história humana. E reconstruí-lo, para estabelecer seu aspecto original de quando em funcionamento.

Sabemos que qualquer material está sujeito a diversos agentes de deterioração, sejam de ordem química (gases nocivos da atmosfera poluída, partículas minerais muito penetrantes, ...), física (variações de temperatura e umidade), biológica (ação de bactérias, fungos, cupins...) ou falhas de manutenção e de preservação. Informações estas já citadas na Publicação 04 deste blog.

Porem, quando se pensa em restauro, normalmente imagina-se um serviço super especializado, com gastos exorbitantes e meses de trabalho e expectativa.

Obviamente esta premissa é também verdadeira, quando relacionada a objetos que requerem tal dispêndio em prol de seu valor intrínseco, seja financeiro, histórico ou sentimental.

Todavia, tal necessidade de restauro também se aplica a objetos simples, que possuímos e desejamos preservá-los, porque nos são úteis, consagrados, participam de nossas ações ou temos por eles um suficiente valor sentimental para preservá-los.

No caso presente e motivo desta postagem, refiro-me a uma cafeteira que possuo, simples e pequena, tipo “Moka” italiana. Em aço inoxidável, perfeita e durável, ela é minha predileta auxiliar, sempre disposta a sensibilizar meu olfato com seu característico odor e meu paladar com o incomparável sabor do cafezinho. E está sempre disponível, mesmo nas insones madrugadas.

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E, como nem tudo é eterno, ontem ela apresentou uma patologia incapacitante, quebrando seu único negro bracinho, impedindo-me de conduzi-la quente até o receptáculo asado (xícara), para ali eu sorver sua irresistível infusão aromática e estimulante.

As antigas cafeteiras, assim como bules, panelas, e outros utensílios metálicos similares, possuíam cabos (para manusear) de “baquelite”, material inventado em 1909 (USA).  

A baquelite tem características propriedades de dureza e longa durabilidade, resistente à temperatura, já que sua composição não é reversível, ou seja, não volta ao amolecimento ou remoldagem.

Seu nome científico é complicado: “polioxibenzimetilenglicolanidrido”, e foi utilizada até para confecção de moedas de um cêntimo de dólar, no intuito de poupar metais, durante a segunda guerra.

Mas o cabo de minha cafeteira não era de baquelite e sim de um plástico pouco resistente às variações térmicas e se partiu aos cacos em poucos anos.

Pensei em adquirir outra, porem certamente não seria tão querida e resistente e, apresentaria o mesmo problema num futuro próximo.

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Então, a confecção de uma prótese seria a solução. Obviamente não plástica, para evitar novo transtorno. O aço inoxidável foi o material escolhido, pois além de também durável, comporia estéticamente seu corpo com coerência metálica.

Retiradas as negras rebarbas ainda aderidas, passei ao polimento e adaptação do engate do futuro cabo. Um perfil chato de aço inoxidável, com largura de 20mm e espessura de 1,5mm foi o escolhido. Foi feito o corte (esmerilhado e polido) no encaixe e um orifício 5,5mm, semelhante ao existente na cafeteira, para ali parafusá-lo. O comprimento foi estipulado em 85mm e a parte inferior arredondada, com diâmetro igual ao da largura.

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Como o engate da cafeteira é ortogonal ao seu eixo, o novo cabo foi curvado a 20mm, em raio de 10mm, seguindo com inclinação pouco maior que a conicidade do corpo, permitindo segurança térmica ao manuseá-la.

Um parafuso também inoxidável, com cabeça hexagonal, arruela e porca fixou o conjunto, de maneira firme e duradoura.

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Após pronta, o teste teve resultado perfeito com a função restaurada. E o brinde, um cafezinho gostoso e a promessa dela em me acompanhar por mais vários anos.

cafe  

Tenha um bom dia

Darlou D’Arisbo

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Uma Gritzner do passado vira presente no restauro - 003

 

“É vedada a utilização de quaisquer informações contidas nestas publicações, para fins lucrativos ou comerciais, sem autorização expressa de seu autor, sob pena de indenização judicial.”

Uma sóbria senhora, dias após visitar nosso museu, trouxe-me uma máquina de costurar, solicitando-me orçamento para um restauro.

Pediu-me que a tratasse com dedicação, pois seria guardada com muito carinho. E também, que os serviços limitassem-se a recuperar sua aparência de quando ativa, sem esconder-lhe os sinais de utilização. Não necessitaria estar apta a costurar, mas movimentar-se, como se o fizesse. Finalmente, que o custo fosse acessível, pois era uma aposentada professora.

Analisei o estado da máquina: as partes oxidadas impediam seu movimento e faltavam algumas peças. A base de madeira seria o pior problema, pois estava incompleta, com infestação de cupins, e com quatro grosseiras e diferentes camadas de tinta.

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Suas informações enterneceram-me e apresentei-lhe o menor orçamento possível, já prevendo que ela não aceitaria tal investimento em uma peça que serviria como mera ornamentação.

Mas a senhora aceitou e insistiu em pagar-me antecipadamente, situação bastante rara.

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Dediquei-me então a desmontar sua mecânica, nos limites estipulados, apenas para fazê-la funcionar. Não foi difícil, após retirar os componentes da fronte e as engrenagens de acionamento, consegui fazer girar o eixo longitudinal. As peças retiradas foram então limpas e o conjunto motriz lubrificado. Em dois dias seu mecanismo estava funcionando. Algumas peças, como pinos da linha, cursores, parafusos,.. foram executados e incorporados.

No terceiro dia comecei a difícil tarefa de desmontar a base de madeira, pois todas as partes estavam comprometidas com folgas, apodrecimento, cupins, material faltante, além das craqueladas camadas de pintura.

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A base já havia sido mal remendada ao longo dos anos, com partes disformes e irregularmente encaixadas. Dezenas de pregos enferrujados rompiam-se ao sair, exigindo furações lateralizadas para extraí-los.

Mas aos poucos fui desmontando-a e, em algumas horas, os doze pedaços de madeira estavam libertados e disponíveis para o “início” de sua recuperação.

As camadas de tinta foram retiradas com removedor e sucessivos e árduos lixamentos, com o cuidado de não comprometer alguns pontos frágeis.

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Depois de limpo, desinsetizado e ajustado, o conjunto do quebra-cabeças foi montado e adesivado com emulsão vinílica. Os inúmeros orifícios de pregos, parafusos e térmitas foram preenchidos com massa de selador e pó de lixamento. Algumas peças faltantes foram talhadas e encaixadas milimetricamente.

Então, executei a montagem final, com delicado ajuste e considerando o objetivo de preservar-lhe as marcas do tempo, conforme solicitação da proprietária.

Finalmente a Gritzner estava concluída, não tão linda como nova, mas majestosa como em seu profícuo tempo de trabalho. Funcionou livre, macia e satisfeita.

No dia combinado, a gentil senhora veio resgatá-la. Observou-a detalhadamente, elogiou meu serviço e perguntou-me, suavemente, se desta forma a máquina poderia incorporar um acervo de museu.

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Respondi-lhe afirmativamente, pois que já vi muitas piores, exibidas em museus negligentes com suas peças.    Então, para minha agradável surpresa, ofereceu-me a máquina para ser acervada em meu próprio museu.  

À noite, fiquei auto questionando, e concluí que teria executado o serviço da mesma maneira se soubesse, de antemão, que acabaria sendo minha.

DETALHES DA MÀQUINA:

Esta Gritzner, quase centenária, foi fabricada em 1906, data conferida pelo número de fabricação (1.559.842).   Sua fábrica foi  fundada em 1872, em Durlach, região de Karlsruhe, província de Baden-Württemberg - Alemanha.    A imensa indústria, possuia seu próprio ramal ferroviário e chegou a produzir 3.000 máquinas por dia, além de bicicletas, bombas d’água  e, posteriormente motocicletas.

Gritzner 3

Após seu falecimento, em 1887, os filhos Rudolph e Julius mantiveram a indústria e, após a segunda Grande Guerra, associou-se com a Pfalzische e tornou-se Gritzner-Kayser.

Gritzner 1  Gritzner 2

Max Gritzner, em 1843 e propaganda de uma revenda inglesa das máquinas 

O símbolo da indústria “uma aranha sobre a teia” simbolizava o trabalho, a dedicação e o melhor da qualidade alemã.