segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Uma Gritzner do passado vira presente no restauro - 003

 

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Uma sóbria senhora, dias após visitar nosso museu, trouxe-me uma máquina de costurar, solicitando-me orçamento para um restauro.

Pediu-me que a tratasse com dedicação, pois seria guardada com muito carinho. E também, que os serviços limitassem-se a recuperar sua aparência de quando ativa, sem esconder-lhe os sinais de utilização. Não necessitaria estar apta a costurar, mas movimentar-se, como se o fizesse. Finalmente, que o custo fosse acessível, pois era uma aposentada professora.

Analisei o estado da máquina: as partes oxidadas impediam seu movimento e faltavam algumas peças. A base de madeira seria o pior problema, pois estava incompleta, com infestação de cupins, e com quatro grosseiras e diferentes camadas de tinta.

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Suas informações enterneceram-me e apresentei-lhe o menor orçamento possível, já prevendo que ela não aceitaria tal investimento em uma peça que serviria como mera ornamentação.

Mas a senhora aceitou e insistiu em pagar-me antecipadamente, situação bastante rara.

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Dediquei-me então a desmontar sua mecânica, nos limites estipulados, apenas para fazê-la funcionar. Não foi difícil, após retirar os componentes da fronte e as engrenagens de acionamento, consegui fazer girar o eixo longitudinal. As peças retiradas foram então limpas e o conjunto motriz lubrificado. Em dois dias seu mecanismo estava funcionando. Algumas peças, como pinos da linha, cursores, parafusos,.. foram executados e incorporados.

No terceiro dia comecei a difícil tarefa de desmontar a base de madeira, pois todas as partes estavam comprometidas com folgas, apodrecimento, cupins, material faltante, além das craqueladas camadas de pintura.

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A base já havia sido mal remendada ao longo dos anos, com partes disformes e irregularmente encaixadas. Dezenas de pregos enferrujados rompiam-se ao sair, exigindo furações lateralizadas para extraí-los.

Mas aos poucos fui desmontando-a e, em algumas horas, os doze pedaços de madeira estavam libertados e disponíveis para o “início” de sua recuperação.

As camadas de tinta foram retiradas com removedor e sucessivos e árduos lixamentos, com o cuidado de não comprometer alguns pontos frágeis.

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Depois de limpo, desinsetizado e ajustado, o conjunto do quebra-cabeças foi montado e adesivado com emulsão vinílica. Os inúmeros orifícios de pregos, parafusos e térmitas foram preenchidos com massa de selador e pó de lixamento. Algumas peças faltantes foram talhadas e encaixadas milimetricamente.

Então, executei a montagem final, com delicado ajuste e considerando o objetivo de preservar-lhe as marcas do tempo, conforme solicitação da proprietária.

Finalmente a Gritzner estava concluída, não tão linda como nova, mas majestosa como em seu profícuo tempo de trabalho. Funcionou livre, macia e satisfeita.

No dia combinado, a gentil senhora veio resgatá-la. Observou-a detalhadamente, elogiou meu serviço e perguntou-me, suavemente, se desta forma a máquina poderia incorporar um acervo de museu.

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Respondi-lhe afirmativamente, pois que já vi muitas piores, exibidas em museus negligentes com suas peças.    Então, para minha agradável surpresa, ofereceu-me a máquina para ser acervada em meu próprio museu.  

À noite, fiquei auto questionando, e concluí que teria executado o serviço da mesma maneira se soubesse, de antemão, que acabaria sendo minha.

DETALHES DA MÀQUINA:

Esta Gritzner, quase centenária, foi fabricada em 1906, data conferida pelo número de fabricação (1.559.842).   Sua fábrica foi  fundada em 1872, em Durlach, região de Karlsruhe, província de Baden-Württemberg - Alemanha.    A imensa indústria, possuia seu próprio ramal ferroviário e chegou a produzir 3.000 máquinas por dia, além de bicicletas, bombas d’água  e, posteriormente motocicletas.

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Após seu falecimento, em 1887, os filhos Rudolph e Julius mantiveram a indústria e, após a segunda Grande Guerra, associou-se com a Pfalzische e tornou-se Gritzner-Kayser.

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Max Gritzner, em 1843 e propaganda de uma revenda inglesa das máquinas 

O símbolo da indústria “uma aranha sobre a teia” simbolizava o trabalho, a dedicação e o melhor da qualidade alemã.