sábado, 12 de dezembro de 2015

Restauro de uma Clemens Muller 1898 - 006

Ao visitar um paradisíaco resort (www.riodorastro.com.br/) encontrei ali uma histórica máquina de costurar Clemens Muller, como decoração de ambiente. Como a máquina merecia um bom restauro, ofereci meus préstimos aos proprietários, que aceitaram com satisfação.
Uma criteriosa análise preliminar revelou que, apesar da aparência, ela estava quase completa, cujas peças desgastadas poderiam ser recuperadas e as faltantes refeitas.
Trouxe-a para nossa oficina e iniciei a desmontagem, com alguma dificuldade, pois todas as partes móveis estavam encravadas, assim como fundidas juntas. Além disso, as várias camadas de pintura sobre partes oxidadas comprometiam seus detalhes em baixo relevo.


  Antes do Restauro
 
A indústria Clemens Muller (Dresden - 1870) foi a primeira fábrica alemã de máquinas de costurar, com a associação de L.O. Dietrich, G. Winselmann, e H. Kohler, todos depois fabricantes de suas próprias marcas (Vesta, Titan, Kohler e outras). A prosperidade da empresa foi tão grande que, em 1880, fabricou 200.000 e, em seu auge (1930) mais de 3 milhões de máquinas. Na 2ª Guerra, passou a produzir material bélico, sendo dizimada pelos aliados, incluindo seu arquivo de registro.
Nosso “Museu de Antigas Máquinas Manuais de Costurar” (MAMC), dentre duas centenas de outras, possui mais de 40 Clemens Muller, fabricadas entre 1880 e 1930, todas aqui restauradas, o que testemunha e assegura nossa competência e honestidade neste desempenho. 


A máquina teve identificada sua fabricação e o autêntico número de série

Ao abrir sua lateral, verifiquei que a engrenagem cônica superior do eixo vertical possuía dois dentes faltantes e, como não havia restos deles no habitáculo, concluí que o acidente ocorreu há muito tempo e já teriam sido retirados.
Após a liberação dos eixos e engrenagens, optei por limagem, aprofundando os demais sulcos e aproximando seus contatos. Descartei a substituição por engrenagens plásticas ou as onerosas metálicas alemãs, considerando o firme princípio da manutenção de sua originalidade.
Os trilhos dos eixos da fronte, também bastante oxidados, mereceram desmonte, aplicação de desoxidante e leve polimento.


Trilhos da fronte e  Dentes quebrados
 
Os eixos foram levemente torneados, suficiente para permitir movimento e evitando aumentar as folgas decorrentes de seu secular funcionamento.
O sistema inferior cursor da lançadeira também estava encravado, foi removido e suas partes trabalhadas

 

 Cursor da lançadeira e orbital da fronte, oxidados



 Logotipo, após primeira limpeza e torneamento do eixo da lançadeira
 
A adaptação de todas as peças mereceu um trabalho específico, exclusivo e individual. Embora possuamos reserva técnica, com possíveis doadoras de peças, prefiro sempre manter a originalidade da máquina a ser restaurada.
Assim como o geral, o conjunto do rebobinador também se apresentava engripado, com eixos oxidados e cobertos por várias camadas de tinta, solidarizado tal uma peça única e rígida.


Rebobinador antes e depois de restaurado, semi montado.
 
Alguns parafusos estavam quebrados, tiveram seus restos retirados, locais e sedes refurados e suas roscas refeitas, dentro dos padrões da época, quais sejam: cabeça cilíndrica, torque por fenda, passo e diâmetros “polegada”,...
Todas as peças móveis (cerca de meia centena) foram individual e particularmente tratadas (desmonte, limpeza, desoxidação, polimento,...), algumas reconstruídas ou recuperadas.
 

 
Limpeza dos dentes impelentes por abrasão e algumas peças da fronte restauradas.
 
A desmontagem das peças móveis impõe organização, ordem e método, para seguirem caminhos distintos de restauro e depositários de guarda, devidamente identificados, evitando extravios ou equívocos nas sequências na recomposição.
O conjunto estrutural não foi desmontado (ocorre apenas em raríssima exceção), pois toda a complexa “árvore” do sistema mecânico poderá não mais adaptar-se perfeitamente.
Sua pré-limpeza foi efetuada com pincel (sem utilização de solventes), delicada e importantíssima, pois é capaz de encontrar indícios de identificação ou detalhes que caracterizam procedimentos de utilização (pedaços de linha, de tecidos, de alfinetes ou agulhas,...).

 
Engrenagem maior (coroa) e volante de acionamento já recuperados
 
Em outras máquinas já encontrei fragmentos de jornais (definem datas) com caligrafia antiga (“pharmácia”,..), anotações de valores (em “mil réis”) e de dimensões de roupas, fragmentos de insetos noturnos e outras peculiaridades decisivas na pesquisa e que identificam sua época e até turnos de trabalho.
A partir desta etapa, com o sistema mecânico (móvel) básico já retirado, foram iniciadas as etapas de limpeza. Inicialmente, realizada leve aplicação de solventes para desagregar restos de lubrificação carbonizada, firmemente incorporados durante um século. Estas aplicações são repetidas várias vezes, com intervalos de 24 horas.
As partes corroídas por oxidação exigem procedimento abrasivo (raspagem, lixamento,..), seguido de desoxidação, aplicação de camada fosfatizante e pintura protetora.
 
Conjunto estrutural com aplicação de fosfatizante, inibidor de oxidação
 
Na fase sequente, empregados detergentes neutros e abluções com água tépida, até completa retirada dos restos. Após, desoxidante e, depois de nova limpeza, aplicada solução de fosfatizante protetor para evitar reoxidação.
Jamais se aplica “jato de areia ou de granalha” para remover corrosão ou pintura antiga. Esta atitude, em partes móveis evidencia imperícia, pois danifica por abrasão os componentes (engrenagens, encaixes,...), retirando a proteção original das partes, alterando sua patente originalidade funcional e seus ajustes, podendo até eliminar alguma identificação impressa em baixo relevo.
É conveniente ressaltar a necessária delicadeza em todas as etapas, sempre com ferramental apropriado e esforços compatíveis, pois a constituição das peças, em aço de baixa resistência, é facilmente quebradiça à impactos.

 

 Limpeza pontual por abrasão com mini-retífica e aplicação de desoxidante
 

Preenchimento com corante aglutinado nas falhas de pintura e base metálica
 
A base metálica, também constituída em aço de baixa resistência, após todo o processo de abrasão, desoxidação e fosfatização, foi completamente coberta com esmalte sintético, pois suas antigas e muitas camadas de tinta dissimulavam os belos desenhos em baixo relevo.
 



Dentre as tantas partes recuperadas, restauradas ou executadas, o torneamento, polimento e regulagem das peças móveis constituíram o maior desafio e tempo disponibilizado. Assim como alguns suplementos, que tiveram origem histórica e longínqua, dos quais destacamos:
O antigo carretel de madeira, perfeito, completo e original, com linha branca, preservado e recebido por doação pelos descendentes de falecida costureira paulista.
A agulha, modelo raríssimo, de utilização e encaixe exclusivo para estas centenárias máquinas, é uma preciosidade, fabricada na República Theca. Seu alinhamento e sincronismo, coincidindo a fresa do eixo vertical, a fenda do calcador, o orifício da placa base e o cursor da lançadeira consistiram em conjunto de árduas tarefas, durante vários dias, também com final feliz.
 


Após restaurada, a condição geral desta ilustre Clemens Muller demonstrou ser satisfatória, sem falhas de funcionamento ou folgas exageradas, apresentando-se tal como em sua primorosa época de atividade.
Certamente merecerá um digno lugar de destaque, concernente à sua patente e histórica nobreza. 
 

O procedimento de restauro excede a mera cirurgia estética, mas sim complexa e funcional. Nosso procedimento, alicerçado em quatro décadas de pesquisas, capacitam a desenvolver profissionalismo e habilidade, suficientes para aplicá-los na reconstituição física dos objetos e recuperação de sua história. Estamos sempre abertos a quaisquer atualizações que resultem em melhor solução, principalmente na preservação das antigas máquinas manuais de costurar, este importantíssimo instrumento mecânico, que foi decisivo participante na evolução mecânica e humana. 
 
Prof. Eng. Darlou D’Arisbo
dezembro de 2015




terça-feira, 13 de outubro de 2015

Restauro de uma antiga “Vesta” - 004

 

As máquinas de costurar, marca Vesta, foram fabricadas pela empresa L.O. Dietrich, estabelecida originalmente em 1871, (consórcio L.O. Dietrich, H. Kohler e G. Winselmann), na cidade de Altenburg, Alemanha. Em 1905, com a dissolução da sociedade, Dietrich passou a produzir máquinas pequenas, econômicas e fáceis de manusear. Na década de 20, produziu dentre outras, a marca Vesta (deusa romana do fogo) até a segunda Grande Guerra.

A indústria, distinguida dentre as maiores, produziu sessenta e três marcas de máquinas de costurar, cujo sucesso foi comprovado, no auge de sua produção, por centenas de milhares de exemplares exportados, também para o Brasil.

Esta máquina, recebida por doação e em péssimo estado geral, apresentava travamento de todo o sistema móvel, oxidado e ainda com uma nociva aplicação de solução resinosa (supostamente tinta preta, pouco solubilizada, verniz ou óleo aglutinante). Uma espessa camada de poeira estava aderida a todo o conjunto.

1.197.454bParte móvel inferior,  já restaurada e montada

Seu desmonte, ainda que parcial, encontrou exagerada dificuldade, pois que as citadas resinas haviam penetrado pelos orifícios de lubrificação e pelas folgas do mecanismo, promovendo solidarização das partes antes móveis.

Fez-se necessário o sequente emprego de métodos abrasivos (raspagens, lixamento,...) com sucessivas aplicações de solubilizantes, pontuais e por imersão.

 ident  1.197.454a  Identificação do número de série e inscrição de fabricante

A pré limpeza foi efetuada com pincel (sem utilização de solventes), de maneira delicada e importantíssima, pois é capaz de encontrar indícios de identificação ou detalhes que caracterizam procedimentos de utilização (pedaços de linha, de tecidos, de alfinetes ou agulhas,...).

Já foram descobertos fragmentos de jornais com caligrafia antiga (“pharmácia”,..), dimensões de roupas, anotações de valores (em “mil réis”), datas e outras peculiaridades decisivas na pesquisa.

garantia Vesta

No interior de uma “Vesta”, encontramos seu certificado de garantia

No corpo da máquina, optou-se por manter as marcas de uso, incluindo retoques existentes de pintura, sendo retiradas apenas as sujidades comprometedoras de funcionamento.

Nossos critérios de restauro técnico evitam desmontes desnecessários, pois que toda e qualquer intervenção em equipamento mecânico antigo, pode produzir sequelas de difícil ou impossível solução, alterando suas folgas ou encaixes.

Assim, normalmente limitamos à retirada e limpeza das partes móveis necessárias, com aplicação de desoxidante, limpeza, ajustes, lubrificação adequada, troca de parafusos, de peças faltantes ou irrecuperáveis, no sentido de permitir a motricidade do sistema, compatível com sua idade e finalidade de utilização.

Eixo  Volante

O eixo do volante, preenchido e torneado, a engrenagem coroa e o volante.

Foram aplicados alguns pequenos cobrimentos de pigmento preto em locais sujeitos a oxidação e também suave limpeza nas partes ainda cromadas.

Na base de madeira, procedeu-se à retirada de escorrimentos de vernizes, manchas e respingos, disseminados pelo conjunto, por processo levemente abrasivo, mantendo a aparência original, sem alterar as marcas do tempo.  Foi aplicado produto antitérmitas (cupinicida), com sequente emprego de cera protetora.

 

Informação Oportuna:

Durante quatro décadas dedicadas ao restauro e preservação das antigas máquinas de costurar, sempre esbarramos na extrema dificuldade em conseguir agulhas específicas, assim como para esta “Vesta”. As agulhas atuais possuem a parte superior alargada e as adaptações por torneamento ou fresamento são operações perigosas e árduas, pelas reduzidas dimensões e dureza do aço.   (vide publicação 12 de nosso “museumaquinascosturar.blogspot.com.br”).

 coloc agulhaInstruções de colocação da agulha (Manual original Vesta)

Recentemente, porem, recebemos o auspicioso contato do Sr. Ivan Ternes (Itajaí – SC), informando ter conseguido as tais raridades na CADEDO (SP). Imediatamente contatamo-nos com a empresa (gentilmente atendidos) e adquirimos alguns exemplares delas, fabricadas na República Tcheca.   Estes elogiáveis procedimentos justificam a manutenção deste blog e incentivam nossa dedicação ao restauro.

agulhas  agulhas colocada

As preciosas agulhas Tchecas e já instalada na “Vesta

 

Esta “Vesta” foi a primeira máquina restaurada que utilizou a agulha citada.

VESTA A “Vesta” restaurada

Após restaurada, a condição geral da máquina demonstrou ser satisfatória, sem falhas de funcionamento ou folgas exageradas, apresentando-se tal como em sua época de atividade e pronta para ser acervada no nosso Museu de Antigas Máquinas de Costurar (MAMC).

A máquina de costurar é uma peça histórica e a sua preservação é indispensável, por traduzir um sistema mecânico característico, com a grande importância de sua finalidade de execução e conserto de vestimentas e afins, na época inexistentes ou difíceis fora do lar.

Nesta publicação, o agradecimento ao Sr. Ivan Ternes

 

Darlou D’Arisbo – Outubro de 2015

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Restauro da cafeteira quebrada - 03

 

“É vedada a utilização de quaisquer informações contidas nestas publicações, para fins lucrativos ou comerciais, sem autorização expressa de seu autor, sob pena de indenização judicial.”

Eu considero RESTAURO como o conjunto de operações para interromper o processo de deterioração de um objeto que testemunhe a história humana. E reconstruí-lo, para estabelecer seu aspecto original de quando em funcionamento.

Sabemos que qualquer material está sujeito a diversos agentes de deterioração, sejam de ordem química (gases nocivos da atmosfera poluída, partículas minerais muito penetrantes, ...), física (variações de temperatura e umidade), biológica (ação de bactérias, fungos, cupins...) ou falhas de manutenção e de preservação. Informações estas já citadas na Publicação 04 deste blog.

Porem, quando se pensa em restauro, normalmente imagina-se um serviço super especializado, com gastos exorbitantes e meses de trabalho e expectativa.

Obviamente esta premissa é também verdadeira, quando relacionada a objetos que requerem tal dispêndio em prol de seu valor intrínseco, seja financeiro, histórico ou sentimental.

Todavia, tal necessidade de restauro também se aplica a objetos simples, que possuímos e desejamos preservá-los, porque nos são úteis, consagrados, participam de nossas ações ou temos por eles um suficiente valor sentimental para preservá-los.

No caso presente e motivo desta postagem, refiro-me a uma cafeteira que possuo, simples e pequena, tipo “Moka” italiana. Em aço inoxidável, perfeita e durável, ela é minha predileta auxiliar, sempre disposta a sensibilizar meu olfato com seu característico odor e meu paladar com o incomparável sabor do cafezinho. E está sempre disponível, mesmo nas insones madrugadas.

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E, como nem tudo é eterno, ontem ela apresentou uma patologia incapacitante, quebrando seu único negro bracinho, impedindo-me de conduzi-la quente até o receptáculo asado (xícara), para ali eu sorver sua irresistível infusão aromática e estimulante.

As antigas cafeteiras, assim como bules, panelas, e outros utensílios metálicos similares, possuíam cabos (para manusear) de “baquelite”, material inventado em 1909 (USA).  

A baquelite tem características propriedades de dureza e longa durabilidade, resistente à temperatura, já que sua composição não é reversível, ou seja, não volta ao amolecimento ou remoldagem.

Seu nome científico é complicado: “polioxibenzimetilenglicolanidrido”, e foi utilizada até para confecção de moedas de um cêntimo de dólar, no intuito de poupar metais, durante a segunda guerra.

Mas o cabo de minha cafeteira não era de baquelite e sim de um plástico pouco resistente às variações térmicas e se partiu aos cacos em poucos anos.

Pensei em adquirir outra, porem certamente não seria tão querida e resistente e, apresentaria o mesmo problema num futuro próximo.

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Então, a confecção de uma prótese seria a solução. Obviamente não plástica, para evitar novo transtorno. O aço inoxidável foi o material escolhido, pois além de também durável, comporia estéticamente seu corpo com coerência metálica.

Retiradas as negras rebarbas ainda aderidas, passei ao polimento e adaptação do engate do futuro cabo. Um perfil chato de aço inoxidável, com largura de 20mm e espessura de 1,5mm foi o escolhido. Foi feito o corte (esmerilhado e polido) no encaixe e um orifício 5,5mm, semelhante ao existente na cafeteira, para ali parafusá-lo. O comprimento foi estipulado em 85mm e a parte inferior arredondada, com diâmetro igual ao da largura.

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Como o engate da cafeteira é ortogonal ao seu eixo, o novo cabo foi curvado a 20mm, em raio de 10mm, seguindo com inclinação pouco maior que a conicidade do corpo, permitindo segurança térmica ao manuseá-la.

Um parafuso também inoxidável, com cabeça hexagonal, arruela e porca fixou o conjunto, de maneira firme e duradoura.

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Após pronta, o teste teve resultado perfeito com a função restaurada. E o brinde, um cafezinho gostoso e a promessa dela em me acompanhar por mais vários anos.

cafe  

Tenha um bom dia

Darlou D’Arisbo