quarta-feira, 22 de junho de 2016

A hermética sociedade dos cupins–Publicação 07



(Terror dos colecionadores e restauradores)

Os cupins (térmitas) são insetos que abundam nos trópicos, alimentando-se de celulose (C6H10O5), constituinte das paredes das células vegetais de madeira seca.

Entomologicamente são denominados termitídeos (Cryptotermes brevis), com cerca de 1.000 espécies conhecidas (no Brasil umas 200) e constituem importantes pragas urbanas, pois danificam o madeiramento de construção, móveis, livros,...

Não devemos confundir com os cupins subterrâneos (Coptotermes havilandi), espécie que habita terrenos, formando montículos e causando prejuízos em pastagens e lavouras.

Além daqueles térmitas, também as brocas (larvas) atacam a madeira. Estas, diferenciam dos cupins pela produção de resíduos com a aparência de pó e por construírem túneis curtos e de maior diâmetro. As brocas são larvas de besouros (não adultos), cujas fêmeas após o acasalamento perfuram a madeira e ali põem os ovos. Atingem a fase adulta em meses (alguns demoram anos).



Broca da madeira (gentileza dddrin)

Nos Estados Unidos e Canadá (onde a maioria das residências é de madeira), uma pesquisa concluiu que uma colônia de cupins, com milhões de indivíduos, pode consumir 360 gramas de madeira por dia. São capazes de destruir um vigamento de telhado em poucas semanas, causando desabamentos (incêndios decorrentes) e destruição de móveis, livros,...
 

Devemos observar as revoadas nupciais (normalmente no verão), quando as colônias de cupins liberam os siriris (ou aleluias), térmitas com asas que irão formar novas colônias. E a presença de asas ou siriris mortos próximos de janelas e de lâmpadas (atraídos pela luz) é claro sinal de colônias de cupins próximas. 


Cupim temporariamente alado (siriri ou aleluia)

A existência de grânulos fecais (fezes de cupins) junto aos móveis, portas e batentes, confirmam a infestação destes.

É difícil avaliar o tamanho de uma infestação, pois seus túneis sempre orientam às conclusões erradas e os seus dejetos podem ser armazenados por anos.

Embora os inseticidas matem os cupins, é comprovadamente impossível que estes produtos (mesmo gases) percorram os estratégicos labirintos, muitos bloqueados por paredes de cera.

A sua alimentação é a celulose, encontrada em qualquer material que a contenha (livros, antiguidades, carpetes, papel de parede, móveis, etc.). Algumas madeiras são naturalmente inatacáveis por cupins, tais como: peroba, jacarandá, pau ferro, braúna, sucupira, copaíba, maçaranduba ...

Embora os cupins não representem, diretamente, perigo para nossa saúde, pois nenhuma patologia possui relação direta com estes insetos, esta praga esteja cada vez mais presente.



As castas da sociedade

Infelizmente (defesa dos cupins), normalmente constatamos a presença da praga quando os estragos já são irreversíveis e, na falta de informações abalizadas e científicas, a crendice popular leva a combate ineficaz, agravando o problema.

Os cupins mantém uma sociedade perfeita e se organizam em castas, tendo uma rainha que comanda a reprodução, soldados que se encarregam de defesa, operários que buscam alimentação e por fim os siriris que possuindo asas, revoam para formarem novas colônias, perpetuando assim a espécie.

A rainha, que pode viver por décadas, possui a função específica de acasalar e ovopositar. Os outros, exclusivos, tratam da sua alimentação e segurança. Milhares de ovos, com cerca de 3mm cada, são produzidos por ela a cada ano e ficam incubados por duas semanas até nascer as ninfas, que se alimentam de resíduos regurgitados por operários que as cuidam e tratam. 


Rainha, prestes a ovopositar

Após diversos estágios de crescimento, geneticamente programados, assumem a determinada e exclusiva posição nas castas.

Os reprodutores adultos desenvolvem órgãos sexuais, asas e os seus olhos tornam-se funcionais. Em determinado momento, deixam a colônia em enxameamento, simultaneamente, nos meses mais quentes. Como estes tem dificuldade para percorrer os túneis, até a saída, operários os “empurram” até a saída.

Após encontrar um local propício, normalmente próximo, perdem as asas e instalam-se. A melhor fêmea torna-se rainha, é fecundada e iniciam ali nova colônia, cujos ovos formarão ninfas, soldados, operários e reprodutores. 



Enxameamento alado

Os operários, estéreis e cegos, são ávidos por celulose, alimento básico para toda a colônia. Alguns também atuam na segurança e alimentação da rainha, ovos e ninfas. Trabalham 24 horas por dia, perfurando o interior das madeiras, construindo galerias e câmaras. Para melhor segurança, criam labirintos com câmaras, depósitos de dejetos e bloqueiam caminhos com paredes de cera.

Os soldados, ao final do estágio de crescimento, adquirem uma blindagem na cabeça e fortes mandíbulas. Aguerridos, são preparados para defender a colônia dos inimigos, especialmente das formigas. 



Térmitas operários


Conclusão:

Os ataques à madeira são aniquiladores, destruindo portas, mobílias e peças constituídas com o material. Infelizmente, as infestações são notadas após vários anos da instalação inicial, quando já é difícil combater a praga instalada ou recuperar a peça atingida. Como são lucífugos (não aparecem à luz), deslocam-se sorrateiramente nas galerias cavadas.

Para saber de sua existência, podemos atentar a três fatores:
1. Observar as revoadas (parecem formigas com asas) nos meses quentes;
2. Notar a existência de seus resíduos fecais (minúsculos grãos secos <1mm), normalmente saídos de galerias já lotadas;
3. Perceber som “oco” ao bater em madeiras atacadas.

Saiba-se, porém, que estas lamentáveis constatações ocorrem após muitos anos de infestação, pois décadas podem transcorrer sem a confirmação da existência dos cupins, já instalados.

Muitos produtos são divulgados como cupinicidas exterminadores. Mas embora suas formulações sejam adequadas (pós, líquidos ou gases), torna-se impossível o contato com os cupins, devido aos bloqueios que eles constroem nos imensos e inacessíveis labirintos.

Às tais dificuldades, acrescente-se a “inteligência” construtiva e organização social deles; executando túneis, desviando orifícios ou encaixes, evitando atingir superfícies, para não deixar sinais visíveis. Ao abrir a madeira de algumas antiguidades, nós constatamos labirintos com bloqueios construídos por paredes de cera, para evitar comunicação.

Embora cegos e surdos, possuem sensores às frequências da luz e do som, evitando proximidades que possam denunciá-los. E, os seus excrementos, só são liberados ao exterior,muitos anos após a instalação, quando os depósitos internam não mais comportam.



Interior de tampo de máquina de costurar seriamente atacado por cupins e depois de restaurado

Evitam-se novas incursões, aplicando produtos líquidos (cupinicidas) sobre as superfícies, somente após a certeza de ainda não estarem infectadas.

O combate efetivo e satisfatório só ocorre quando alteradas suas condições mínimas de sobrevivência. E, como seus limites suportáveis de temperatura, situam-se entre os -5ºC e os 70ºC (cinco graus negativos e setenta graus positivos), dependendo das dimensões das peças, a colocação destas em forno (microondas é ótimo), por uma hora ou partes grandes em freezer (câmara frigorífica), por uma semana, são indicações com bons resultados comprovados.
 

Realizamos algumas experiências, colocando peças de madeira atacadas por cupins em câmaras frias (-18ºC) por cinco dias. Ao abrir as peças, constatamos curiosas aglomerações com centenas de térmitas soldados mortos, cobrindo em proteção a rainha e ninfas, na tentativa de preservar-lhes o calor necessário para sobrevivência.
Somente observados mais conhecimentos sobre sua perfeita sociedade e instinto de sobrevivência, poderemos obter sucesso no domínio desta praga.

Publico estas informações, após muito pesquisar sobre a sociedade dos cupins e com a intenção de alertar aos interessados na preservação e restauro de antiguidades. 


Prof. Darlou D'Arisbo
restauro.antique@yahoo.com.br