terça-feira, 20 de setembro de 2016

Restauro de uma New Home 1902–Publicação 08

 

“É vedada a utilização de quaisquer informações contidas nestas publicações, para fins lucrativos ou comerciais, sem autorização expressa de seu autor, sob pena de indenização judicial.”

 

No início do ano, recebi o contato de um proprietário de antiga máquina de costurar, interessado em nossos serviços de restauro. Dois detalhes despertaram-me curiosidade: A máquina estava no extremo norte do país, do outro lado do equador e, o elemento desafiador: completamente enferrujada, pois havia ficado por anos submetida às intempéries.  As fotos recebidas revelavam-na tal uma escultura, grosseiramente  talhada em terracota.

Apostei positivamente no desafio e, semanas após, recebi via SEDEX a máquina, cuja descrição anterior confirmava sua aparente irremediável situação.

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Arruinada, com mecanismo encravado

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Parte interna da fronte, após difícil retirada

Com procedimentos cuidadosos, alternando choques térmicos e dinâmicos, em algumas semanas consegui desmontá-la, removendo ninhos de insetos e, arduamente, descobrindo localização de parafusos e pequenas peças, camuflados pela densa oxidação.

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“Residência” de aracnídeos e parafusos camuflados

Após trabalho de raspagem por abrasão (esfoladura direta com espátulas de aço), as peças grandes foram tratadas com antioxidante e posterior inibidor de reoxidação. As peças pequenas tiveram tratamento similar delicado, submetidos posteriormente à escovação mecânica e leve desbaste em torneamento. O polimento nas peças móveis evitou retirar as “caries” resultantes da corrosão, pois as folgas aumentadas alterariam (ou impediriam) os movimentos. Assim, micrometricamente, foram submetidas aos limites dimensionais que permitissem preservar sua dinamicidade funcional.

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Bloco superior após desoxidante e remoção delicada, realizada com mini retífica

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Algumas peças do mecanismo da base e fronte já submetidas aos tratamentos

Como o sistema mecânico da parte inferior encontrava-se em estado de impossível desmontagem e recuperação, com seus eixos solidarizados nos mancais, cogitou-se em eliminar este conjunto, por isolamento, possibilitando o movimento apenas da parte superior e permitindo a aparência de funcionamento.

Porém, depois de muitas tentativas, com diferentes procedimentos (choques dinâmicos, térmicos,...), em alguns dias conseguimos desmontar o sistema mecânico inferior. Algumas peças vergaram, outras apresentaram leve torção ao serem retiradas.  Tal situação  exigiu sequente aplicação de calor (maçarico) para voltarem à forma original, com extremo cuidado para evitar fraturas ou alteração de dimensões. Muitas destas peças necessitaram também leve retorneamento, evitando comprometer a transmissão de movimentos.

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De nosso acervo outra New Home serviu de “doadora”

Possuímos em nosso acervo uma New Home semelhante, considerada irrecuperável, embora com o mecanismo superior em funcionamento. Esta então consistiu em doadora de algumas peças para a máquina em restauro: tampa da lançadeira, parafusos, jumelos de articulação, buchas de mancal, passadores de fio, etc… 

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O sistema inferior desmontado 

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Retorneamento do eixo horizontal e polimento da embreagem

Com as engrenagens cônicas limpas e assentadas, respectivamente no eixo horizontal retorneado e no vertical, fizemos o polimento da embreagem.  A tampa lateral foi ajustada e colocada.

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Parte inferior já montada e funcional

O mecanismo da parte inferior teve todos os eixos retorneados, assim como os parafusos, mantendo as roscas originais (não são similares às atuais). Algumas buchas de bronze foram adaptadas às dimensões restauradas, com destaque à conicidade da bucha central. O regulador do espaçamento dos pontos de costura foi refrisado, assim como o cursor, seu trilho e apoios.

Os componentes de acionamento dos dentes impelentes foram, de maneira semelhante, trabalhados e regulados.

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Peças delicadas na abrasão final com escova metálica rotativa.

O sistema mecânico de preenchimento da lançadeira, aparentemente irrecuperável, tomado por grossa ferrugem, comprometendo os minúsculos dentes de suas pequenas engrenagens, teve uma dedicação minuciosa, recompondo sua micrométrica endentação, excêntricos, eixos,... Esta tarefa constituiu-se de devotada minúcia ao refazer cada um  das dezenas de dentinhos da coroa, com micro limas mantendo as dimensões suficientes para continuar os movimentos.  Assim também na rosca-sem-fim do eixo e todas suas articulações.

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Preenchedor da lançadeira já preparado para ajuste

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Regulador superior de pressão

O regulador da linha foi construído com chapa inoxidável, termicamente envelhecido, com preensor de latão adaptado e parafuso fixador retorneado.

Embora esta New Home fosse originariamente acionada a pedal, por solicitação do proprietário (e nossa concordância) e com a finalidade meramente expositiva residencial, foi instalada em base de  madeira, semelhante às “portáteis” manuais da época.

Parte desta “mesinha” foi retirada de uma doadora New Home e adaptada.  A parte lateral inferior de madeira foi “importada” da Argentina (Sodimac), com perfil semelhante às bases então existentes.

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Curioso mecanismo de preenchimento da lançadeira e fronte, instalados

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Completa, aguardando ajuste final e complementos

Foi-lhe aplicada pintura preta (esmalte sintético), sobre proteção contra reoxidações, com cuidado para não mascarar suas marcas da idade. Depois, montada, para ajustamentos finais e acessórios.

A conclusão do restauro da New Home excedeu às normas adotadas pelo nosso acervo, no que tange à decoração nela adesivada.  Nas nossas máquinas, limitamo-nos a mantê-las funcionais como estavam em seu período nobre de trabalho, sem os adesivos ou decoração, pois estariam gastos pela utilização.  Mas, considerando a singularidade não museológica, resolvemos inseri-los, em conformidade com o proprietário.

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A centenária New Home ressurge à dinâmicidade viva

Segue o link do vídeo com o curioso funcionamento do preenchedor da lançadeira (da presente máquina recuperada), demonstrado com o auxílio de uma furadeira: 

https://plus.google.com/photos/photo/103980935723936250359/6332570440902161618?icm=false&authkey=CMGcqYewms2Q5QE

 

Agradecimentos

Ao Supremo Criador) que sempre me iluminou, principalmente nos momentos de dúvida na continuidade desta empreitada, provendo-me de persistência (inarredável) e norteando-me com ânimo, onde muitas vezes cogitei amputar partes de seu mecanismo, para preservar outros. 

À minha querida esposa Sandra, que soube apoiar-me, com idéias, sugestões e o mais presente incentivo. 

Ao Sr. Claudio Coppini (Toledo Tintas)  que, por décadas tem conseguido as difíceis tonalidades nas tintas necessárias para os restauros. 

À AXIS Comunicação (Toledo – PR)  que produziu, com perícia e presteza os adesivos que a adornaram. 

Ao Sr. Sidnei Serra, colecionador de Rio Grande – RS, que forneceu as minúsculas e indispensáveis limas.

E o especial preito de gratidão  aos proprietários  desta centenária máquina,  os quais depositaram plena e total confiança em nossos serviços, para o prodigioso resgate de parte da história da família.   

 

Prof. Eng. Darlou D’Arisbo

setembro de 2016